28º Domingo do Tempo Comum

"Meus filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus! 25 É mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus!" - Mc 10,24

 

Seguir Jesus é um gesto de gratidão

Frei Gustavo Medella

 

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella: Caminhos do Evangelho | 28º Domingo do Tempo Comum

 

“Jesus olhou para ele com amor, e disse: ‘Só uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me!’” (Mc 10,17-30)

Apenas um versículo do Evangelho deste 28º Domingo do Tempo Comum. No entanto, muitas indicações do que significa a iniciativa amorosa de Deus para com a humanidade e a possível resposta de gratidão que pode ser expressa no seguimento de Jesus Cristo.

♦ Jesus olha com amor – Olhou para aquele homem, olhou para os Apóstolos, olhou para quem veio a seu encontro, olha para mim e para você que lê este texto. Não se trata de um olhar qualquer, mas repleto de amor, pois a especialidade de Deus é amar. Um olhar que transforma a vida de quem por ele se deixa iluminar e conduzir. Um olhar que liberta.

♦ Um amor que orienta as escolhas – Quem se sente amado por Deus se sente agraciado, rico de bênçãos, portador de um verdadeiro tesouro. Possuindo o que julga a maior riqueza da vida, começa a desprender-se de outras ambições que antes pareciam tão centrais e importantes. Vive a experiência que o autor sagrado descreve no Livro do Eclesiástico: “Preferi a Sabedoria aos cetros e tronos e, em comparação com ela, julguei sem valor a riqueza; a ela não igualei nenhuma pedra preciosa, pois, a seu lado, todo o ouro do mundo é um punhado de areia e, diante dela, a prata será como a lama” (Eclo 7,8-9).

♦ O discipulado como gratidão – Compreender a lógica amorosa de Deus inverte, inclusiva, a noção do discipulado. Seguir a Jesus não é tarefa que se cumpre em busca de um prêmio ou empenho que faz para a aquisição de um lugarzinho no céu. Ao contrário, é gesto de total gratidão a Deus, um caminho necessário a ser seguido, abraçado na liberdade do amor.

Reconhecer esta dinâmica não é sempre tarefa fácil e tranquila. Pode ser que leve uma vida inteira e cada um tem o seu momento. Para aquele jovem que veio ao encontro de Jesus, pelo visto, ainda não era chegada a hora.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.

 

28º Domingo do Tempo Comum 

Reflexão do exegeta Frei Ludovico Garmus

Oração: “Ó Deus, sempre nos preceda e acompanhe a vossa graça para que estejamos sempre atentos ao bem que devemos fazer”.

  1. Primeira leitura: Sb 7,7-11

Em comparação com a sabedoria,

julguei sem valor a riqueza.

Em todos os povos, culturas e civilizações o ser humano sempre buscou a felicidade. O ser humano analisa e reflete sobre os modos de viver que trazem ou não, a felicidade. A experiência acumulada desta busca de felicidade chama-se sabedoria. Ao longo de sua história, Israel aprendeu muito da sabedoria dos povos vizinhos. Acolheu parte dela dentro da própria experiência religiosa. Mas foi na Lei de Deus que encontrou a sabedoria que distingue Israel de outros povos. Quando os povos conhecerem essas leis, dirão: “Sábia e inteligente é, na verdade, esta grande nação” (Dt 4,6). A sabedoria de Israel está contida nos chamados livros sapienciais da Bíblia. O texto que ouvimos é tirado do Livro da Sabedoria, o último livro do Antigo Testamento a ser escrito. Apresenta Salomão, rei de Israel, a quem são atribuídos os livros sapienciais, que pede a Deus o dom da sabedoria. Salomão considera a sabedoria preferível às riquezas, honras e à própria saúde, porque “todos os bens me vieram com ela” (Sb 8,2-5). Na concepção judaica daquele tempo, a riqueza era considerada uma bênção de Deus, dada aos que observam a Lei de Moisés, fonte da verdadeira sabedoria. No entanto, a riqueza por si só não traz a felicidade. A felicidade vem do bom relacionamento com Deus, com o próximo e, especialmente, com os irmãos mais necessitados. O Reino de Deus trazido por Jesus não combina com as riquezas, quando não partilhadas com os mais pobres (Evangelho).

Salmo responsorial: Sl 89

      Saciai-nos, ó Senhor, com vosso amor, e exultaremos de alegria.

  1. Segunda leitura: Hb 4,12-13

A Palavra de Deus julga os pensamentos

e as intenções do coração.

A Carta aos Hebreus dá um grande destaque à Palavra como comunicação de Deus com os seres humanos. Desde o início lembra que Deus se comunica com seu povo: “Deus falou antigamente a nossos pais pelos profetas. Agora, nos últimos dias, falou-nos pelo Filho […] por quem criou também o mundo” (Hb 1,1-2). As palavras que usa para qualificar a Palavra chegam a personificá-la. Ela é viva, eficaz (cf. 2Tm 3,15-16), cortante, penetra até o mais íntimo de nosso ser e nos julga, e a ela devemos prestar contas. Em João, a Palavra é o próprio Filho que o Pai nos enviou: “E a Palavra se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Assim é a Palavra de Deus que ouvimos na celebração da Missa. Como essa Palavra nos tocou hoje?

Aclamação ao Evangelho

 Felizes os pobres em espírito

porque deles é o Reino dos Céus.

  1. Evangelho: Mc 10,17-30

Vende tudo o que tens e segue-me!

Domingo passado ouvimos Jesus respondendo a uma pergunta dos fariseus sobre se é permitido ao marido escrever uma carta de divórcio e despedir sua mulher. Na resposta Jesus remetia para o para o projeto de Deus para o matrimônio: Deus fez o ser humano à sua imagem e semelhança e os fez homem e mulher, para gerar filhos e para ser um auxílio necessário mútuo, vivendo em comunhão de vida e amor um com o outro. Depois, na casa de Pedro, Jesus explicou aos discípulos que o divórcio equivale ao adultério. Abençoou também as crianças, que merecem amor e não podem ser esquecidas em caso de separação

Hoje ouvimos que, logo depois desta cena, Jesus se pôs a caminho de Jerusalém com os discípulos. Então veio um jovem correndo ao seu encontro, ajoelhou-se aos pés de Jesus e perguntou: “Bom mestre, que devo fazer para ganhar a vida eterna”? Jesus o questiona: “Por que me chamas de bom? Somente Deus é bom”! A busca da vida eterna, da felicidade definitiva com Deus, parecia sincera da parte do jovem. Jesus lhe indicou o caminho da sabedoria da Lei (1ª leitura). O jovem respondeu que sempre observou com fidelidade os mandamentos. Olhando para ele com amor, Jesus percebeu que ainda faltava ao jovem alguma coisa para ser seu discípulo. Propôs-lhe, então, um novo caminho para ganhar a vida eterna, o caminho do Reino de Deus: “Vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres […]. Depois vem e segue-me”! O jovem ficou triste e foi embora, “pois era muito rico”. E Jesus comentou: “Como é difícil para os ricos entrar no Reino de Deus”! Os discípulos se espantaram e Jesus repetiu: “Filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus”! É difícil para todos e mais difícil, ainda, para os ricos: “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus”. Pedro, então, pergunta o que vão ganhar eles, que largaram tudo para segui-lo. Jesus responde: No presente, uma nova família, a comunidade cristã que os acolhe; no futuro, a vida eterna. O seguimento de Cristo exige uma opção básica: Largar as riquezas e tudo que nos amarra, para abraçar com generosidade o Reino de Deus e servir ao próximo, especialmente os irmãos na fé. “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça e todas as coisas vos serão dadas de acréscimo” (cf. Mt 6,33). O jovem rico podia ganhar a vida eterna observando a Lei de Moisés. Os apóstolos ganharão a vida eterna por terem largado tudo para seguir a Jesus. A vida eterna com Deus é a meta tanto do judeu como do cristão. Mas o judeu acreditava receber a vida eterna como recompensa por ter observado a Lei. O cristão, porém, deve abraçar e viver a proposta do Reino de Deus aqui na terra, seguindo o caminho de Jesus, amando a Deus acima de tudo e ao próximo como Jesus o amou. A vida eterna não é um mérito, e sim, um dom gratuito de Deus para aqueles que o amam.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

 

Como entrar no Reino de Deus

Frei Clarêncio Neotti

O homem pergunta como ganhar a vida eterna (v. 17). Jesus responde-lhe como “entrar no Reino de Deus” (v. 24). O homem pensava em vida depois da morte, na qual o Antigo Testamento acreditava. Havia discussão sobre se todos haveriam de ressuscitar ou se só os justos teriam o privilégio. Discutia-se se o corpo também ressuscitaria ou se só a alma era imortal.

Jesus introduz a expressão ‘Reino de Deus’ e faz dela a ideia central de toda a sua pregação. Ora o Reino é sua pessoa presente entre nós, ora é o modo de vivermos a presença de Deus. Para Jesus, o Reino tem duas fases: uma atual, neste mundo; outra futura, que é a glória eterna. A segunda depende da primeira. A vida do ser humano sobre a terra foi muito valorizada por Jesus. Essa vida já é parte da eternidade. Já nesta vida vivemos a vida divina.

Esse Reino, que deve ser a primeira preocupação nossa (Mt 6,25-34) e pelo qual devemos sacrificar tudo (Mt 13,44ss), só é compreendido pelos que têm espírito de pobre (Lc 6,20) e desenvolve-se lentamente na vida presente (Mt 13), alcançando a sua plenitude (Lc 21,31) na ressurreição, quando os corpos são transformados (1Cor 15,52-54). Se para entrar no Reino é preciso espírito de pobre, a exigência de Jesus ao homem rico torna-se clara como a luz do dia (v. 21). Poder-se-ia pensar que essa pobreza fosse indicada somente para os que fazem votos religiosos. Para eles, com mais razão, mas a exigência é para todos os cristãos.


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

 

Um convite que deixou de ser respondido

Frei Almir Guimarães

Mais uma vez estamos diante desse texto evangélico conhecido como do jovem rico. O evangelista Marcos fala de um encontro que houve quando Jesus percorria as praças, aldeias e espaços da Palestina. Trata-se de um texto/episódio vocacional, de chamamento. Vamos refletir sobre alguns pormenores, aliás encantadores, relatados por Marcos. Deveremos, no entanto, transpor essas reflexões para o chamamento que nos dirige hoje o Cristo ressuscitado. Paira no ar um questionamento: “Até que ponto respondemos aos apelos de despojamento que o Senhor nos dirige? Até que ponto temos a coragem de responder sim a um convite que mexe com nossos arranjos existenciais?”

Um certo rapaz manifesta vontade de ingressar no universo belo do mundo novo de que falava Jesus, reino, mundo novo, vida eterna. Entrar na vida, na vida que dura. O moço chega com respeito. Corre e ajoelha-se.

Para entrar na vida nada de extraordinário, diz Jesus: amar a Deus e ao próximo não apenas de boca, considerar Deus digno de todo apreço e louvor. Respeitar o outro: cuidar dos pais, da vida dos outros, não tirar-lhes a vida, não levantar calúnias, não olhar com olhar de posse o corpo dos outros. Desde sempre o jovem observa tudo isso. Uma pessoa correta. Provavelmente sinceramente correta e não apenas cumpridora legal. Bonitinha e certinha.

Marcos diz que Jesus olhou para ele com amor. Emocionou-se com essa retidão. Não seria a retidão um primeiro e fundamental elemento que valoriza uma pessoa? E Jesus faz então um convite: “Só uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres e terás um tesouro nos céus. Depois, vem e segue-me”.

Um caminho exigente, um caminho de seguimento de perto do jeito de Jesus viver: com pouca coisa, sem segurança em bens, sem levar em conta exageradamente o dinheiro, o poder, a fortuna, o prestígio, os aparatos exteriores. Ao rapaz foi pedido de desvencilhasse de seus bens. Que se fizesse livre e copiasse o Mestre: buscar os outros, estar disponível, não se preocupar demais com isto e aquilo… sobretudo desvencilhar-se de si mesmo.

O jovem ficou abatido e triste e foi embora porque tinha muitos bens. E Jesus: Difícil que uma pessoa apegada aos bens, rico de bens e de si, entre no mundo novo, na vida em plenitude que começa aqui e que é uma vida perdida ou imensa no Deus que é vida.

Há diferentes modo de alguém ser cristão. Há aqueles que são católicos desde sua infância, agem corretamente, frequentam a missa, aceitam os sacramentos e vivem… Há aqueles que, num determinado momento, tem necessidade de algo mais. Não se sentem satisfeitos. Vivem uma santa inquietude.

Christian Bobin: “Eliminei muitas coisas inúteis de minha vida e Deus se aproximou para ver o que estava acontecendo”. Os que que querem seguir Cristo simplificam a vida. Queremos viver sem o louco desejo de possuir. Assim agindo, quem sabe Deus vem ver o que está acontecendo…

Cristãos casados, constituem família, mas levam uma vida profundamente evangélica. Procuram viver na abundância das coisas necessárias, sem apego doentio a nada. Sua família usufrui dos benefícios da modernidade, mas seus membros são capazes de reduzir suas necessidades materiais para não serem escravos da mentira. Levam uma vida digna, mas simples, com espírito de partilha.

Há essas pessoas que são da Igreja e mesmo com recursos materiais significativos adotam um trem de vida muito simples: não querem carro, seu vestir é bonito mas simples, seu tempo não é gasto apenas em garantir não sei o que, mas livre para os outros, para que o mundo do Reino cresça.

Pensamos naqueles e naquelas que, na sua juventude, resolvem seguir bem de perto o Senhor Jesus num estilo de vida consagrada: vivem em comunidades, colocam o dinheiro em comum, são dependentes uns dos outros, desposam o Esposo que é o Senhor e estão disponíveis com sua vida de oração e de missão para acelerar a chegada do mundo novo que Jesus chama de Reino.

Buscar um tesouro escondido. Sair de si. Não se limitar a uma religião de ritos e de rezas. Os que se afastam das aparências, do prestígio, do culto de seus interesses vão sentindo uma sede nova na garganta. Essas horas podem ser aquelas em que acontece um chamamento que pode redimir nossa vida.

“A vida cristã consiste em encontrarmo-nos pessoalmente com Jesus para, como que encharcados, como ele do amor do Pai, possamos segui-lo impulsionados pelo seu Espírito e passar toda a vida fazendo o bem. Tudo o mais – doutrina, ética ,liturgia e comunidade – tudo está a serviço desse encontro pessoal e só tem sentido com mediações que fortalecem e realizam esse relacionamento”(Pedro José Gomez Serrano). Jesus vivo que nos chama é o essencial.

“O homem mais bem sucedido não é, como às vezes se pensa, aquele que consegue acumular maior quantidade de dinheiro, mas aquele que sabe conviver melhor e de maneira mais fraterna. Por isso, quando alguém renuncia pouco a pouco à fraternidade e vai se fechando em suas próprias riquezas e interesses, sem resolver o problema do amor, termina fracassando como homem” (José Antonio Pagola).

“O rico se afasta de Jesus cheio de tristeza. O dinheiro o empobreceu, tirou-lhe liberdade e generosidade. O dinheiro o impede de escutar o chamamento de Deus a uma via mais plena e mais humana. “Como é difícil para os ricos entrar no reino de Deus”. Ter dinheiro não é uma sorte mais um verdadeiro problema porque o dinheiro nos impede de seguir o verdadeiro caminho para Jesus e para seu projeto do Reino de Deus” (José Antonio Pagola)

Oração

Livra-nos, Senhor, de tudo o que nos atravanca,
de nossas cobiças e complacências,
de nossas vaidades e riquezas,
riquezas que um dia haveremos,
de qualquer jeito, de perder.

Ajuda-nos, Senhor, a nos tornar pobres,
sem ostentação e acordos feitos debaixo dos panos,
despojados de tudo, também de nossas ideias fixas.

Desta forma daremos aos outros toda atenção possível
e já vamos entrando leves e transparentes
na alegria de teu reino. Amém.


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

 

A mudança fundamental

José Antonio Pagola

A mudança fundamental a que Jesus nos chama é clara. Deixar de ser egoístas que veem os outros em função de seus próprios interesses, para atrever-nos a iniciar uma vida mais fraterna e solidária. Por isso, a um homem rico que observa fielmente todos os preceitos da lei, mas que vive encerrado em sua própria riqueza, falta-lhe algo essencial para ser discípulo seu: compartilhar o que tem com os necessitados.

Existe algo muito claro no evangelho de Jesus. A vida não nos é dada para ganhar dinheiro, para ter êxito ou para conseguir bem-estar pessoal, mas para tornar-nos irmãos. Se pudéssemos ver o projeto de Deus com a transparência com que Jesus o vê e compreender com um só olhar a profundidade última da existência, nós nos daríamos conta de que a única coisa importante é criar fraternidade. O amor fraterno que nos leva a compartilhar o que é nosso com os necessitados é “a única força de crescimento”, a única coisa que faz a humanidade avançar decisivamente para sua salvação.

O homem mais bem-sucedido não é, como às vezes se pensa, aquele que consegue acumular maior quantidade de dinheiro, mas aquele que sabe conviver melhor e de maneira mais fraterna. Por isso, quando alguém renuncia pouco a pouco à fraternidade e vai se fechando em suas próprias riquezas e interesses, sem resolver o problema do amor, termina fracassando como homem.

Embora viva observando fielmente certas normas de conduta religiosa, ao encontrar-se com o evangelho ele descobrirá que em sua vida não existe verdadeira alegria, e se afastará da mensagem de Jesus com a mesma tristeza daquele homem que “foi embora triste, porque era muito rico”.

Com frequência, nós cristãos nos instalamos comodamente em nossa religião, sem reagir diante do chamado do evangelho e sem buscar nenhuma mudança decisiva em nossa vida. “Rebaixamos” o evangelho, acomodando-o aos nossos interesses. Mas esta religião já não pode ser fonte de alegria. Ela nos deixa tristes e sem consolo verdadeiro.

Diante do evangelho devemos perguntar-nos sinceramente se nossa maneira de ganhar e de gastar o dinheiro é a própria de quem sabe compartilhar ou a de quem busca apenas acumular. Se não sabemos dar do que é nosso ao necessitado, falta-nos algo essencial para viver com alegria cristã.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

 

Rico pode seguir Jesus?

Pe. Johan Konings

Um homem rico pergunta a Jesus o que deve fazer para “ter a vida eterna em herança” (evangelho). Jesus vê que o homem está preocupado com o que é bom – “Só Deus é bom, e mais ninguém”. O homem é um judeu exemplar, observa todos os mandamentos. Mas, segundo Jesus, isso não é o suficiente para ele: é capaz de algo mais. Simpatizando com ele, Jesus o convida para que o acompanhe em sua missão. “Vai, vende tudo que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no céu”. Diante disso, o homem se desanima: é rico demais. “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus”. (O Reino de Deus não é propriamente o que costumamos chamar de “Céu”; é o modo de viver que Jesus veio instaurar, o reino de amor, de justiça e de paz, onde é feita a vontade de nosso Pai celeste. O rico não conseguiu entregar-se a essa nova realidade … )

Os discípulos se assustam com a severa observação de Jesus. Então, ele acrescenta: “Para os homens isso é impossível, mas não para Deus. Para Deus tudo é possível” (Mc 10,27). Portanto, vamos deixar o assunto nas mãos de Deus.

No fim, Jesus fica triste porque uma pessoa tão prendada não foi capaz de segui-lo pelo caminho e assim gozar, desde já, a alegria de participar da implantação do Reino. Suas qualidades humanas não foram suficientes para superar o apego aos bens do mundo. Por si mesmo, não conseguiu libertar-se. Só Deus o poderia libertar.

Contrariamente à opinião corrente, a riqueza não deve ser vista como privilégio, como recompensa de Deus, mas como empecilho para participar do Reino. Os pobres têm maior facilidade em arriscar tudo para realizar a partilha e a renúncia que o Reino exige. Têm menos a perder. Ora, se Jesus aconselha esse desapego tão difícil, mas para Deus nada é impossível, convém pedir a Deus essa graça do desapego, para ter a felicidade de participar do Reino que Jesus veio implantar. Então, a gente recebe a “herança eterna”.

Segundo a 1ª leitura, Salomão pediu a Deus não a riqueza, mas a capacidade de governar com sabedoria. Na realidade, Deus lhe deu também a riqueza, mas apenas como sobremesa; o importante mesmo é a sabedoria para bem servir.

Lição: o rico não deve pensar que vai conseguir a herança eterna com base em suas posses, poder, capacidade intelectual ou coisa semelhante. Tem de pedir a Deus, como graça, algo que não está incluído no pacote do poder: a capacidade de participar do Reino. Também não deve estar exclusivamente preocupado com “salvar sua alma” quando tudo lhe for tirado, mas peça desde hoje a Deus a graça do desapego para participar desse Reino, que já começou no mundo daqueles que seguem Jesus. Na alegria do servir encontrará a garantia da “herança eterna”.

Se um rico participa ativamente do Reino, não será por causa de sua riqueza, mas apesar dela. Tendo bens, transforme-os em instrumentos de comunhão fraterna e viva como se não os possuísse.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Todas as reflexões foram tiradas do site https://franciscanos.org.br/

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