24º Domingo do Tempo Comum

"Não lhe digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete". (Mt 18, 22).

Se o novo Coronavírus falasse…

Frei Gustavo Medella

“Lembra-te do teu fim e deixa de odiar” (Eclo 28,6). Na Roma Antiga, ao voltar vitorioso de uma batalha, o general comandante do exército era acolhido numa cerimônia pomposa na qual, depois de desfilar sobre uma biga, carro movido por tração animal, era condecorado com as mais altas honrarias. No entanto, fazia parte também do protocolo a presença de um escravo que acompanhava o cortejo, e que a cada distância predeterminada, subia na biga e soprava no ouvido do general: “Lembra-te que és mortal”. A sabedoria romana tinha clareza que esta verdade não poderia jamais sair da vista de qualquer ser humano, especialmente dos mais vitoriosos. Afinal, esquecê-la seria, com toda certeza, o início da derrota.

Sem falar ou emitir qualquer sinal de som audível, o invisível vírus da Covid-19 chegou gritando no ouvido da humanidade palavras semelhantes à do Livro de Eclesiástico ou do escravo romano: “Lembra-te do teu fim e deixa de odiar”. A pandemia é o susto que, se soubermos bem interpretar, talvez venha nos salvar de uma derrocada maior. Não está sendo nada fácil lidar com tantas perdas, cada vez mais próximas, e com tanto desmando, incompetência, egoísmo e maldade em tantos níveis diferentes.

Aprender as duras lições que o vírus vem trazer passa por uma disposição sincera de assumir mudanças profundas no ser, no ter, no consumir, no relacionar-se e no abraçar a fé. É hora de o ser humano deixar de se iludir e vencer os próprios delírios de onipotência que tanto mal têm feito às pessoas e ao planeta. Reencontrar um modo novo, mais simples, modesto e desarmado de viver é tarefa que se impõe. E, neste empenho, o perdão se faz ingrediente fundamental. Perdoar-se, perdoar e pedir perdão são atos de coragem que ajudam o ser humano a ser diferente, sempre para melhor.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.

 

24º Domingo do Tempo Comum

Reflexões do exegeta Frei Ludovico Garmus

Oração: “Ó Deus, criador de todas as coisas, volvei para nós o vosso olhar e, para sentirmos a ação do vosso amor, fazei que vos sirvamos de todo o coração”.

  1. Primeira leitura: Eclo 27,33–28,9

Perdoa a injustiça cometida por teu próximo;

Quando orares, teus pecados serão perdoados.

O autor destas palavras é um sábio (200 a.C.), que dá conselhos a seus ouvintes. Para viver uma vida feliz aponta algumas condições: 1) libertar-se do rancor e da vingança contra o ofensor; 2) perdoar a injustiça cometida pelo próximo, porque, quando a pessoa orar, seus pecados serão perdoados; 3) quem guarda rancor contra o próximo e dele não se compadece, quando pedir perdão de seus pecados não será atendido; 4) lembrar-se que um dia iremos morrer e prestar contas a Deus; 5) Pensar na aliança que Deus fez conosco e não levar em conta a falta alheia (Evangelho). – Jesus inclui o pedido de perdão na oração do Pai-Nosso.

Salmo responsorial: Sl 102

O Senhor é bondoso, compassivo e carinhoso.

  1. Segunda leitura: Rm 14,7-9

Quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor.

O apóstolo Paulo escreve à comunidade cristã em Roma. Era uma comunidade mista, composta por cristãos de origem judaica e cristãos de origem pagã. Por informações do casal judeu-cristão, Áquila e Priscila, expulsos de Roma (cf. At 18,1-4), Paulo sabia das tensões entre cristãos de origem judaica e cristãos de origem pagã, motivadas por diferenças culturais e costumes alimentares (Rm 14,1-6). Um judeu-cristão, por exemplo, não comia carne vendida no mercado público, porque podia ser carne de animal sacrificado aos ídolos pagãos. No caso de uma refeição em comum, Paulo recomenda que o gentio-cristão, acostumado a comer de tal carne, se abstenha de comê-la em respeito à consciência “fraca” do judeu-cristão (cf. 1Cor 8,1-13). O apóstolo condena a discriminação por questões alimentares entre judeu-cristãos e gentio-cristãos. O importante, diz Paulo, é que tanto quem come de tudo como quem se abstêm de algum alimento, ambos devem dar graças a Deus (Rm 14,6). Em nosso texto (v. 7-9), Paulo volta a insistir no essencial que une a todos os cristãos: Jesus Cristo. Não vivemos nem morremos para nós mesmos, diz ele. Vivemos e morremos para o Senhor, porque pertencemos todos ao Senhor. O que importa é que Cristo morreu e ressuscitou para ser o Senhor dos mortos e dos vivos.

Aclamação ao Evangelho

Eu vos dou este novo mandamento,

Nova ordem, agora, vos dou;

Que, também, vos ameis uns aos outros

Como eu vos amei, diz o Senhor.

  1. Evangelho: Mt 18,21-35

Não te digo perdoar até sete vezes,

Mas até setenta vezes sete.

O texto hoje lido faz parte do assim chamado “sermão da comunidade” de Mateus. A passagem começa com a pergunta de Pedro sobre o perdão das ofensas (v. 21-22) e continua com a parábola do devedor cruel (v. 23-35), ambas exclusivas de Mateus. O evangelista, depois de tratar do perdão de ofensas graves que envolvem a comunidade cristã (cf. domingo passado: v. 15-20), fala agora do limite do perdão entre duas pessoas da comunidade. É Pedro que, em nome dos discípulos, introduz a questão com uma pergunta: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” No judaísmo rabínico o limite máximo para o perdão fraterno era de até quatro vezes. Na pergunta, Pedro amplia o imperativo do perdão para sete vezes, número considerado perfeito. Na resposta, Jesus amplia, de certa forma, o imperativo do perdão até o infinito: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”. Porque o perdão de Deus é gratuito, fruto de seu amor infinito. O amor de Deus é a medida do amor ao próximo e também do perdão, dado ou recebido: “Se perdoardes as ofensas dos outros, vosso Pai também vos perdoará” (Mt 6,14).

O perdão é gratuito, mas supõe por parte do ofensor a disposição de pedir e acolher o perdão oferecido por Deus, pois perdoando ao próximo Deus nos perdoa. É isso que pedimos na Oração do Senhor: “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Assim Jesus nos ensina na parábola do devedor cruel (Mt 18,23-35). Um homem devia ao seu patrão uma enorme fortuna, simplesmente impagável. No acerto de contas, o patrão mandou que o empregado fosse vendido, com mulher e filhos e com tudo que possuía, para pagar ao menos parte da dívida. O empregado, porém, prostrado aos pés do patrão, suplicava: “Dá-me um tempo e eu te pagarei tudo!” O patrão, cheio de compaixão, perdoou tudo o que o empregado lhe devia e mandou soltá-lo. Este, porém, logo que saiu, foi cobrar uma insignificante dívida de seu companheiro; agarrou-o e quase sufocando-o dizia: “Paga-me o que deves”. O pobre do companheiro lhe suplicava: “Dá-me um tempo e te pagarei tudo”. Mas o empregado não quis saber e mandou jogá-lo na prisão, até que pagasse a divida. Ao saber disso, o patrão, cheio de indignação mandou chamar o empregado cruel e lhe disse: “Eu te perdoei tudo porque me suplicaste. Não devias também tu ter compaixão de teu companheiro como eu tive de ti?” E o empregado foi entregue aos torturadores até que pagasse tudo.

Na minha relação com o próximo sou mais parecido com o patrão misericordioso ou ao empregado mesquinho e cruel? O perdão que pedimos e o perdão que damos aos outros são a melhor preparação para celebrarmos dignamente a Eucaristia.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

 

O gesto mais sublime, o gesto mais necessário

Frei Clarêncio Neotti

Bem no final da lição, Jesus diz o modo de perdoar. No início dissera a quantidade de vezes: sempre. Agora diz que devemos perdoar ‘de coração’. Na Bíblia, ‘coração’ significa a totalidade da pessoa humana, sobretudo aquela parte interior só conhecida por Deus. É nesse sentido que Deus dizia ao profeta Samuel: “O homem olha as aparências, mas o Senhor olha o coração” (1Sm 16,7). Deus vê por dentro, onde correm os pensamentos, onde se tomam as decisões, onde se curtem os sentimentos. É, portanto, no interior de cada um de nós que deve nascer o perdão. Sem condições. Sem escamoteações. Sem subterfúgios. Sem restrições. Assim como o amor mais perfeito é o gratuito, o perdão mais completo é também
o gratuito. Ainda que seja comum entre os cristãos um comportamento expresso com frases como esta: “Eu perdoei, mas para mim Fulano é como se não existisse”, essa atitude não é cristã e impede a plena comunhão com Deus.

Ouso dizer que são poucas as pessoas que perdoam verdadeiramente. Como são poucos os que amam gratuitamente e são raros os que vivem evangelicamente desprendidos. É bem mais fácil dar esmola do que se desvencilhar das coisas. É bem mais fácil elogiar um inimigo do que perdoar-lhe. O não perdoar ‘de coração’ produz imediatamente desconfiança. E a desconfiança impede qualquer gesto de paz. Na Mensagem aos Povos da América Latina, os bispos reunidos em Puebla ensinaram que “não existe gesto mais sublime do que o perdão”. Eu diria: no momento, não há no mundo gesto mais necessário do que o perdão, para que se possa construir a paz.


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

 

Não existe seguimento de Jesus sem o perdão

Frei Almir Guimarães

O perdão abre as portas dentro de nós. Então desistimos de carregar os pesos de ontem para descobrimos as asas de hoje.
José Tolentino Mendonça

Novamente diante nós o complexo e intrincado tema do perdão. Quantas vezes em contextos pequenos de nossa vida pessoal sentimo-nos mais ou menos gravemente ofendidos, preteridos, esquecidos, desrespeitados, caluniados. Claro, de outro lado também ofendemos e magoamos. Quando ofendidos, por vezes, reagimos. Proclamamos nossa pureza ou nossa inocência neste ou naquele assunto com suavidade ou com veemência. Podemos até responder o mal com o mal. Outras vezes negamos a palavra, o peso da ofensa bloqueia nosso caminhar. Uns carregam uma ofensa por toda a vida. Cada pessoa tem seu modo reagir. Há, é claro, situações muito delicadas: o assassinato de um filho, o descuido com que um amigo foi tratado no hospital, a tortura, os campos de concentração de guerra, essa guerra que mata aqueles que amamos. Não podemos, no entanto, escapar da exigência do Evangelho no tocante ao perdão. Tolentino tem razão, o perdão abre as portas de dentro de nós.

Não há escapatória. Somos discípulos de Jesus que nos lembrou o mandamento de sempre: amar o semelhante. Ele mesmo vai ilustrar esse amor dando a vida pelos seus, aceitando a cascata de ofensas, de modo particular no decorrer de seu processo de condenação e nos episódios de sua morte. “Pai, perdoai, eles não sabem o que fazem”. Não há escapatória. Afinal, o Pai faz chover sobre justos e injustos, faz o sol nascer sobre bons e maus. Se somos cumulados de bens pelo Pai, cumularemos de bens os que vivem à nossa volta. Se o patrão da parábola havia perdoado o seu empregado devedor, por que ele adotou outra postura com o outro que lhe devia uma ninharia? O sentido da parábola é claro. Deus perdoa gratuitamente o pecado a quem lhe pede perdão demonstrando benevolência absoluta supondo que o homem prove seu arrependimento e repulsa pelo mal cometido. Cabe-nos ser bons como o Pai e bom. Ou não?

“Quando Jesus fala de amor aos inimigos não está pensando em sentimentos de afeto, simpatia ou carinho para com os que nos fazem o mal. O inimigo continua sendo inimigo e dificilmente poderá despertar em nós tais sentimentos. Amar o inimigo é pensar em seu bem; não buscar o mal, mas aquilo que possa contribuir para que ele viva melhor e de maneira mais digna. Isso supõe esforço, porque precisamos aprender a depor o ódio, superar o ressentimento e buscar o que é bom para ele. Jesus fala de rezar “por aqueles que nos perseguem” provavelmente como uma maneira concreta de ir despertando em nós a capacidade de amá-los” (Pagola, Grupos de Jesus, p. 252-253). Deveríamos, nesse contexto, rezar e cantar a famosa oração da paz atribuída a São Francisco: Senhor, fazei de mim instrumento de vossa paz… onde houver ofensa que eu leve o perdão…

Quando o mundo toma conhecimento de determinadas barbaridades responde com violência. Neste ano um policial americano matou um homem negro colocando seu pesado joelho no seu pescoço. As câmaras registraram a ocorrência e em poucos instantes o mundo inteiro tomou conhecimento do fato. Manifestações de revolta em todo o mundo, violência, ódio. Podemos, até certo ponto, compreender tais reações, embora não concordemos com a violência. O ódio destrói. Há outros modos de reagir. O ódio universal se compreende, mas não se justifica. O homem está preso e certamente será condenado a uma pesada pena. O que o cristão não pode aceitar é entrar numa roda viva de violência.

Uma história contada por Elie Wiesel, escritor judeu, prêmio nobel da paz. O texto aqui reproduzido é de livro de José Tolentino Mendonça: “Na infância esteve prisioneiro em Auschwitz, na companhia dos pais, irmãos, amigos. Praticamente só ele sobreviveu. Podemos imaginar até que ponto sentia-se espoliado. A partir de 1945, quando a guerra acaba, passa anos em que o único objetivo de sua vida era procurar uma possível justiça para o irreparável. “Com foi possível tamanho horror?… Como foi possível?” E a sua vida era isso. Cada dia amanhecia e acordava num inferno. Não conseguia encontrar a sua alma. Até que foi falar com um rabino. E o rabino disse-lhe: “Meu filho, enquanto tu não perdoares serás prisioneiro de Auschwitz”. E essa palavra redimensionou o seu coração para sempre”.

E para terminar: “O perdão é um nascimento espiritual, um novo começo, a ruptura com o passado. É uma oportunidade de viver novamente, de reconstruir o vínculo, a chama da vida. É o sinal visível da liberdade espiritual. Tudo está programado para respondermos sob a lógica da ação e reação, aplicando a conhecida Lei do Talião, olho por olho dente por dente, mas o perdão quebra este ciclo e nos torna verdadeiramente livres, imprevisíveis, espirituais” (Francesc Torralba).


Oração

Reina em mim a escuridão,
mas em ti está a luz.
Eu estou só
mas tu não me abandonas.
Estou desanimado
mas em ti está a ajuda.
Estou intranquilo,
mas em ti está a paz.
A amargura me domina,
mas em ti está a paciência.
Não compreendo teus caminhos,
mas Tu conheces o caminho para mim.

Dietrich Bonhoeffer


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

 

O que seria de nós sem o perdão

José Antonio Pagola

Chama-se “Parábola do Servo Cruel” porque trata de um homem que, tendo sido perdoado pelo rei de uma dívida impossível de pagar, é incapaz de perdoar, por sua vez, a um companheiro que lhe deve uma pequena quantia. O relato parece simples e claro, mas os autores continuam discutindo sobre o sentido original, pois tal como o apresenta Mateus, encaixa-se muito bem no convite de Jesus de “perdoar até setenta vezes sete”.

A parábola que havia começado de maneira tão promissora, com o perdão do rei, acaba tragicamente. Tudo termina mal. O perdão do rei não consegue provocar um comportamento mais compassivo entre seus subordinados. O servo perdoado não sabe compadecer-se de seu companheiro. Os outros servos não se perdoam e pedem ao rei que faça justiça. O rei, indignado, retira seu perdão e entrega o servo aos verdugos.

Por um momento parecia que podia ter começado uma era nova de compreensão e mútuo perdão. Não foi assim. No final, a compaixão fica anulada por todos. Nem o servo nem seus companheiros, nem sequer o rei escutam o convite ao perdão. Houve um gesto inicial de perdão do rei que também não sabe perdoar “setenta vezes sete”.

O que Jesus está sugerindo? Às vezes pensamos ingenuamente que o mundo seria mais humano se tudo fosse regido pela ordem, pela estrita justiça e pelo castigo aos que praticam o mal. Mas não construiríamos assim um mundo tenebroso? O que seria uma sociedade onde fosse suprimido radicalmente o perdão? O que seria de nós se Deus não soubesse perdoar?

A negação do perdão nos parece às vezes a reação mais normal e até a mais digna diante da ofensa, da humilhação ou da injustiça. Mas não é isso que humanizará o mundo. Um casal sem mútua compreensão se destrói; uma família sem perdão é um inferno; uma sociedade sem compaixão é desumana.

A parábola de Jesus é uma espécie de “armadilha”. A todos nós parece que o servo perdoado pelo rei “devia” perdoar a seu companheiro. É o mínimo que dele se podia exigir. Mas então, o perdão não é o mínimo que se pode esperar de quem vive do perdão e da misericórdia de Deus? Nós falamos do perdão como um gesto admirável e heroico. Para Jesus era o mais normal.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

 

Perdão e reconciliação

Pe. Johan Konings

No domingo passado ouvimos o ensinamento de Jesus sobre a correção fraterna. Mas não basta “corrigir”, importa que o que estava errado seja realmente superado pelo perdão. E que adianta pedir perdão a Deus, se a gente mesmo não perdoa?

Já o Antigo Testamento nos ensina que não podemos pedir perdão se não perdoamos. A 1ª leitura fundamenta o perdão fraterno na Aliança: somos todos “povo de Deus”. Como posso condenar para sempre o meu irmão, que é filho de Deus? Se fizesse tal coisa, eu negaria minha comunhão com Deus, e então, o perdão de Deus não me alcançaria.

E Jesus, no evangelho, nos ensina a estarmos sempre dispostos a perdoar, inúmeras vezes. Conta a parábola do homem que foi absolvido de uma dívida enorme, mas não quis perdoar uma ninharia a seu colega. Resultado: seu patrão o condenou a pagar tudo. Quem não é capaz de perdoar não é capaz de viver em fraternidade, em comunhão.

O que importa para Deus, em última instância, não é acertar contas, e sim, promover a comunhão, a amizade e a reconciliação. Talvez seja preciso primeiro pôr as contas em dia, mas o objetivo final é a fraternidade. Quem não sabe reconciliar-se com seu irmão não pode ser amigo de Deus, que é o Pai de todos.

Num mundo de competição, como é o nosso, nada se perdoa, não se leva desaforo para casa, vinga-se a honra etc. Devemos substituir esse modelo de competição e de vingança pelo modelo de comunhão. Quando perdoo, não perco nada: pelo contrário, ganho a comunhão com o irmão e a realização de minha vocação: a semelhança com Deus (cf. Gn 1,26).

O ser humano é tão coitado, que qualquer coisa que alguém lhe estiver devendo lhe parece uma carência vital… Apenas Deus é bastante rico para perdoar sempre a quem se arrepende. A Igreja deve ser um sinal de Deus no mundo. Deve imitar Deus no perdão – no sacramento da reconciliação – e ensinar a mesma coisa aos homens. O sacramento da reconciliação é uma alegria, não um desagradável dever. É uma celebração da magnanimidade de nosso Deus. “Confessar” significa proclamar não só os pecados, mas, sobretudo o louvor do Deus que perdoa. O sacramento da reconciliação é um serviço que Deus confiou à Igreja, comunidade de salvação, para ajudar o irmão a corrigir seu caminho, a reconciliar-se com Deus e com seus irmãos na fé, e a proclamar a grandeza do amor de Deus. Para quem vivia em pecado grave, é uma verdadeira ressurreição.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Todas as reflexões foram tiradas do site: https://franciscanos.org.br/

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